Sobre coragem, medo e o motivo de ir às ruas.

Sobre coragem, medo e o motivo de ir às ruas.

Caramba, incrível como nesses últimos dias duas palavras tem caminhado pelos meus pensamentos. Coragem e medo! Quero ir paras as ruas no domingo! Quero morar em Londres no ano que vem! Bom, esses dois sentimentos fazem com que o coração acelere, o sangue circule mais rápido pelo corpo e os olhos fiquem totalmente alertas. Acho que o medo e a coragem são, na verdade, primos e ninguém nunca se deu conta.

Ando realmente destemida o que faz de mim, na minha visão, uma mãe meio sem juízo! Meu Deus, o normal é que filhos não tenham juízo, e não as mães. Mas enfim, não sei o que houve, só sei que com o passar do tempo a maternidade me trouxe muita segurança, e isso tem sido um tanto quanto perigoso (e bom também, não vou mentir)!

Hoje, na hora que saí de carro do meu bairro, o céu de São Paulo estava escuro e carregado como se fosse cair o mundo. Eu, na verdade, não precisava ir para o lado de lá da ponte, era um compromisso que dava para adiar, mas como já falei, ando completamente destemida e, além disso, não gosto de dar para trás no que combinei de fazer. Por isso simplesmente fui! Na volta, aconteceu o que eu previa, caiu o mundo. E o pior, eu caí dentro da favela exatamente na hora em que a água começou a cair! Foi aí que a coragem deu lugar ao medo, senti um frio na espinha e muita vontade de não estar ali. Pensei que por me arriscar à toa eu poderia ter sido assaltada ou até mesmo sequestrada e os meus filhos ficariam sem mãe. Pude até escutar aqueles apresentadores sensacionalistas (que eu odeio com todas as minhas forças) contando a minha história, que horror! Os poucos minutos que passei dentro da favela me deram arrepios, mesmo com toda a minha coragem e meu otimismo que é um tanto quanto exagerado.

A grande questão é: Por que tem que ser assim? Por que tenho medo de andar ali, mesmo sendo tão destemida? Por que tenho esse desejo diário de mudar para Londres? O que faz eu ter medo de pessoas que nasceram no mesmo país que eu e que moram a poucos quiilômetros da minha casa? Por que tenho que ter carro blindado?

Todas essas questões passaram pela minha cabeça durante esse “atalho waze”, dentro da favela, no meio da maior tempestade, e que me colocou em poucos minutos dentro do meu bairro. E como tudo o que acontece na minha vida tem uma conexão gigante, ao fundo tocava Cold Play, “In my place” que diz assim:

“Em meu lugar
Estavam linhas que eu não podia mudar
Eu estava perdido, sim
Cruzei linhas que não deveria ter cruzado
Eu estava perdido, ah sim

Sim, quanto tempo você tem que esperar por isso?
Sim, quanto tempo você tem que pagar por isso?
Sim, quanto tempo você tem que esperar por isso?”

Era realmente a trilha sonora para aquele momento e para aqueles sentimentos. Por que meu Deus?  Por que estamos vivendo assim em um país que é gigante pela própria natureza? Porque tanta cobiça? Como conseguem dormir esses políticos bandidos que tem nos assaltado sem pudor algum? Quanto tempo teremos que esperar por um Brasil melhor?

Essa semana já escutei falar tantas coisas sobre a manifestação de domingo como: “O impeachment vai ser pior para o país! ” “Será que vai ter blackblocks?” ” Cuidado, você tem filho!s E se acontecer algo com você?”, essa pega no fundo da alma diz aí?.

Após essa aventura na favela eu descobri que não vou para a rua por partido político, ou por impeachement, ou por isso, ou por aquilo. Vou às ruas para mostrar minha indignação com toda essa podridão e roubalheira; vou porque quero oportunidades iguais para todos; vou por que não quero ter que andar de carro blindado, quero andar é de transporte público; vou porque, com todas as minhas forças não quero dois mundos paralelos dentro do meu próprio país, quero um só país, uma única nação! Sonhadora? Pode ser, mas essa é a minha verdade , esse é o meu real motivo.

Por isso, domingo, vou juntar toda a minha coragem, deixar o medo em casa e vou para às ruas mostrar minha indignação! Mas ainda assim, mesmo não querendo desejar, tenho vontade de viver em Londres.

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Thaís Vilarinho

Mãe de dois meninos lindos Matheus e Thomás, Fonoaudióloga Clínica. Pratico corrida e Muay Thai. Adoro escrever, viajar, escutar música, ver um bom filme, sair e estar com a família e os amigos. Sou curiosa, adoro conhecer e aprender coisas novas.

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6 Comentários

  1. Lúcia Barboza - 14 de março de 2015

    Lindo e super verdadeiro o seu texto Thais. Veio de encontro às minhas idéias e pensamentos. Parabéns por conseguir traduzir este sentimentos que nos corrói!

  2. Leandra - 17 de março de 2015

    Que texto lindo!!!
    Me emocionei

  3. Adrielli Fernandes - 23 de março de 2015

    Bom, no mundo em que vivemos hoje está tudo em desordem, corrupção, morte e principalmente assaltos! Da maioria das pessoas que moram em Paraisópolis, grande parte é batalhadora e grande parte não quer nada com a vida. Muitas pessoas querem mudar o mundo, não adianta só reclamar da política, se você quer que algo mude terá que começar por você. Adianta só reclamar?Tudo bem, você pode ir pra rua, exigir seus direitos fazer o que quiser , o que cabe à você exercer. Mas se quer melhorar o mundo ou pelo menos o ambiente onde vive, não só enxergue o lado obscuro das coisas mas sim enxergue o lado bom, moro lá e todas as vezes que vejo as pessoas na rua me pergunto: “Onde estão indo?São pessoas ruins ou boas?”
    E sempre o que penso, é o contrário do que vocês , pessoas de classe alta , raciocinam. O ponto em que quero chegar é, acha que todas as pessoas que vivem lá sabem que você existem? Estão planejando assaltos contra você? Não, seu carro pode ser blindado , pode ser o que for mas não adianta ter um carro blindado e muito dinheiro se não tem seu pensamento sobre os outros de uma outra forma.
    Pense sobre isso: Se queres mudar o mundo mude de opinião sobre as pessoas primeiro, tente enxergar o lado bom das coisas!
    A opinião de vocês não vale nada quando falam desse jeito das pessoas, ou seja , saiba que uma COMUNIDADE, é um grupo de pessoas ruins e boas , não um lugar arruinado e somente pessoas arruinadas! Mude seus pensamentos.

  4. Thaís Vilarinho
    Thaís Vilarinho - 24 de março de 2015

    Adrielli,
    Boa noite! Você sabia que faço trabalho voluntário e atendo crianças inclusive da Paraisópolis? Não entendi o seu comentário pois você não me conhece e não sabe o que eu faço para mudar o mundo! Sou a primeira a não querer andar com carro blindado, não queria ter medo! Queria educação, saúde e oportunidade igual para todos! Sei que a grande maioria são pessoas boas e trabalhadoras eu inclusive conheço e tenho amizade com muitas pessoas da Paraisópolis. Entretanto o medo não é um sentimento que eu escolhi sentir ele acontece baseado em fatos e histórias reais que escutamos.
    Se você soubesse e me conhecesse Adrielli, com certeza não teria tirado essas conclusões sobre o meu texto. Uma pena que você entendeu dessa maneira. Sinta-se livre e a vontade para comentar Com carinho Thaís

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