Criança e arte

Criança e arte

A Sylvia Chiodarelli Lopes é uma leitora querida do Blog que tem o pensar fora da caixa. Ela é bailarina, e claro, ama a arte. Fez a doce gentileza de escrever sobre arte e criança e deu esse post com muito carinho, de presente para o Mãe fora da Caixa. Nos apaixonamos pelo texto, espero que apreciem e possam abrir novos horizontes para esse assunto. A arte é uma janela gigante para a alma…passe isso para seus filhos!

PS: Sylvia está inciando um Blog super interessante onde registra seus estudos de arte. Vale a pena conferir!

Sylvia,

Obrigada pelo carinho, ficamos muito honradas de ter um texto seu aqui no blog.

“Há quem diga que crianças não combinam com museus, ou que devemos levá-las apenas àqueles com temática infantil, ou ainda em atividades específicas para os pequenos.

Discordo.

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Marido e filho na exposição, de “gente grande”, do eterno crianção Salvador Dalí

“A necessária promoção da ingenuidade à criticidade não pode ou não deve ser feita à distância de uma rigorosa formação ética ao lado sempre da estética. Decência e boniteza de mãos dadas.”

Paulo Freire

Minha musa da arte, Marilza, morou em Paris (com5 filhos – incluindo meninas gêmeas) visitando museus de gente grande. O segredo? Ir sempre, e cada vez mostrar um pedacinho.

Sempre, porque é um espaço de produção do saber. O objeto museal conta seu valor, mas quem o sente é o espectador, e desse sentir surgem as mais diversas possibilidades de aprendizagem. Muito já se falou sobre a arte não ser especificamente a obra, mas sim o diálogo que ela estabelece com os sentidos do observador; e estabelecer diálogo é possível com qualquer pessoa, de qualquer idade. Acervos, exposições e até mesmo as paredes (pensando nas paredes da Pinacoteca) favorecem a construção de uma percepção crítica da sociedade.

Por exemplo:

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Matisse “Woman in Yellow and Blue withGuitar” 1939 Fonte: timeline da Agenda de Arte e Cultura por Rosangela Sanches del Rio

O que está desenhado? A imagem retrata uma mulher, sentada com um violão ao seu lado.

O que esta obra diz para mim? Bem, para a Sylvia ilustra uma artista livre. Ela é livre para tocar sua música, livre para sentar de maneira charmosa e jogar um manto displicentemente, para posar confortável, entortando o pescoço como se possuísse o pintor, segura da sua beleza e sem medo da exposição.

Essa é a resposta correta? Não existe resposta correta em arte.

Foi isso que o Matisse quis dizer? Não tenho a menor ideia, porque esta obra era inédita para mim há 15min… rs!

O que conversar com o meu filho? Como bailarina, artista “espírito livre” que sou, puxaria o assunto sobre o papel da mulher na sociedade. Não sabemos se é casada, se tem filhos, se cuida da casa sozinha, se tem empregada, se é solteira, rica ou pobre, mas sabemos que independente da vida que está inserida esta mulher é livre para ser o que gosta de ser. E é assim que devemos tratar, não só as mulheres, mas todos os seres humanos, sem aprisiona-los nos estereótipos que a sociedade espera deles.

Lição de casa? Bem, como achei lindo, eu me proporia (e me propus) chegar em casa e inventar um desenho com a mesma combinação de cores, para descobrir de que outra maneira esses tons convergem… um céu estrelado, com um foguete verde, soltando fogo vermelho? Por que não?

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by Sylvia Chiodarelli Lopes e sua mente inquieta

Pronto…. observamos uma obra lindíssima, pensamos e falamos sobre ela, e de brinde…brincamos. Ficou guardado lá na cabecinha uma imagem linda de um pintor sensacional, lições sobre igualdade de gêneros e composição de cores.

Voltando às crianças… Um pedacinho, porque, afinal, são crianças. O passeio precisa,obrigatoriamente ser um ato de lazer, caso contrário nada será realmente absorvido. O pedagogo alemão, Gustav Kramer diz:

[…] para ser educativa, a arte precisa ser arte e não arte educativa; do mesmo modo, para ser educativo, o museu precisa ser espaço de cultura e não um museu educativo. É na sua precípua ação cultural que se apresenta a possibilidade de ser educativo. O museu não é lugar de ensinar a cultura, mas, sim, lugar de cultura.

(KRAMER, apud, LEITE e OSTETTO, 2005, p.36).

Quando levamos os filhotes ao parque, para andar de bicicleta, brincar no play,  não montamos um roteiro rígido, simplesmente vamos. Sabemos que vai ser divertido, nos animamos, pensamos em um lanche gostoso, mas no final deixamos rolar e absorvemos o que o passeio nos presenteará. O mesmo vale para museus. Devemos ir ao sabor do vento e deixar que revoadas de sensações nos invadam e abram nossas mentes de maneira quase que debochada, apresentando pensamentos novos, ou os velhos, os mesmos de sempre, mas dessa vez em outra cor.

Concluo com o pensamento de um dos mais importantes historiadores da arte do século XX:

Ao escrevê-lo, pensei em primeiro lugar nos adolescentes que acabam de descobrir por si mesmos o mundo da arte. Mas nunca acreditei que livros para jovens devam ser diferentes daqueles destinados para adultos, salvo pelo fato de terem que enfrentar a mais exigente classe de críticos – críticos que rapidamente desmascaram e se indignam com qualquer indício de jargão pretensioso ou sentimentalismo espúrio.

Ernst Hans Josef Gombrich, no prefácio de seu livro “A história da arte” “

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Thaís Vilarinho

Mãe de dois meninos lindos Matheus e Thomás, Fonoaudióloga Clínica. Pratico corrida e Muay Thai. Adoro escrever, viajar, escutar música, ver um bom filme, sair e estar com a família e os amigos. Sou curiosa, adoro conhecer e aprender coisas novas.

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2 Comentários

  1. Sylvia Chiodarelli Lopes - 19 de dezembro de 2014

    Que delicia ler meu texto aqui!!! Escrevi com muito carinho!

  2. Quer levar as crianças nos “museus de gente grande”? | Fragmentos de arte - 20 de dezembro de 2014

    […] Elas gentilmente publicaram, eu fiquei honrada e emocionada. Para ler a versão delas (que está mais bonita que a minha.. rs) clique aqui. […]

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