Filhos, se vocês soubessem…

Filhos, se vocês soubessem…

Quanta honra ter a Natércia Tiba como colunista do blog! Sempre tive muita admiração pelo trabalho dela, ter ela por aqui é um verdadeiro presente. Começando a participação dela com esse texto lindo e muito tocante!

“Filhos, quantas coisas gostaríamos que vocês entendessem… Vocês têm uma compreensão única da realidade, que nos encanta e nos deslumbra, mas quanto queríamos que soubessem…

Essa pureza no olhar só se vive quando criança, mas muitas vezes nos deixam num lugar desconfortável enquanto pais. E este é o nosso lugar, mesmo que vocês não compreendam o que nos move a determinadas atitudes e comportamentos.

Diante do amor imenso que nos invade, coisas simples se tornam complicadas e coisas complicadas se tornam tão simples.

Escolher o pediatra, por exemplo, é mais do que uma escolha racional. O relacionamento com o pediatra é permeado por emoções, inseguranças, expectativas e confiança. Queremos garantir  os melhores cuidados sempre. Além de sábio, que seja carinhoso, compreensivo e habilidoso. Uma escolha aparentemente simples mas que se torna um tanto complexa.

Ao mesmo tempo, algo complexo como doar-se, como dar a vida por alguém se torna algo simples. Por vocês, filhos, damos a vida sem pestanejar. Se pudéssemos transferir as doenças, viroses e sofrimentos para nós, os deixaríamos imunes a tudo e todos.

Também pelo nosso gigantesco amor coisas pequenas, se tornam momentos inesquecíveis, como delicioso cheiro que exalam, como as primeiras sílabas que falam e que valem mais do que qualquer discurso de uma grande celebridade. Para nós, pais, vocês são as celebridades, são os protagonistas da nossa história.

Embebidos nesse amor, coisas enormes se reduzem a nada. O maior problema profissional se esvai no carinho, no abraço e no brilho dos pequenos olhos descobrindo o mundo.

Filhos, vocês nos relembram a todo instante da nossa humanidade. Lembram-nos como é bom o toque de quem amamos, a risada mais sincera e a batida do coração que dispara por amor. Lembram-nos o quanto nós, adultos, perdemos anos de vida com coisas tolas, nos esquecendo o que realmente importa.

Mas a vida não é fácil e esse colo delicioso que damos, essa proteção a todo custo não é a forma como o mundo irá tratá-los. Mesmo querendo um mundo melhor para vocês, vocês se depararão com situações inimagináveis. O mal das bruxas e monstros das histórias dos livros que lemos e que causam medo são  muito pequenos perto do mal com o qual se depararão.

As frustrações que vivem nesse mundo protegido pelo nosso amor, mesmo que chateiem são pequenas demais perto de tudo que irá frustrá-los.

Como gostaríamos que entendessem que nossas atitudes, por mais que os desagradem, visam o bem. Mesmo sendo tão especiais para nós, no mundo vocês serão apenas mais um em busca de um lugar.

Filhos, vocês são especiais para nós desde que nasceram  mas tornarem-se especiais para o mundo é uma missão para cada um. Cabe a nós ensinar que tornar-se especial não é voltar holofotes para si mesmo, mas sim fazer diferença. O especial não se encerra em vocês, mas se espalha nas relações e no mundo.

Quando pedimos que façam o que não querem, não é para irritá-los. Vocês podem não gostar, mas confiem em nós, seus pais. Afinal, aprendemos muito com vocês mas temos muito a ensinar também.

Algumas vezes erramos. Erramos em atitudes e temos que ser flexíveis e humildes para reconhecer. É o reconhecimento dos nossos erros que nos permite aprender e nos tornar pais melhores. Se necessário recorremos a ajudas externas. Não temos todas as respostas.

Mesmo que haja muito amor, cuidar e educar exige muito esforço e muitas vezes nos sentimos exauridos.

É nosso papel ensinar a vocês a importância de reconhecer e agradecer o que nós pais fazemos. Talvez um dos nossos erros seja esperar que reconhecimento e gratidão venham naturalmente. Aprendemos então que esse olhar para o outro é ensinado. Cabe a nós, mais esse ensinamento.

A partir do momento que reconhecerem nosso papel, poderão fazer o mesmo por outras pessoas que amam e pela família que construirão. Não esperamos que façam tudo que fizemos,. Vocês entenderão um dia que “cuidar” não é uma moeda de troca, é um gesto de amor.

Talvez um dia vocês também tenham filhos e terão então a dimensão do amor que sentimos. Vocês nos amam agora mas experimentarão outro tipo de amor quando tiverem seus próprios filhos. Caso não os tenham, que saibam usar esse amor que receberam nas relações mais próximas, que sejam capazes de cuidar, não só de nós pais, quando estivermos mais velhos e fragilizados, mas de si mesmos e de todos aqueles que amarem e que precisarem.”

* Natércia Tiba, é psicóloga clínica, psicoterapeuta de casais e famílias, atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias em consultório particular. Autora do livro “Mulher sem Script”, Integrare Editora e colaboradora em diversos livros na área de psicologia, como “Quem Ama Educa”, Içami Tiba, Integrare Editora, “O Manual de Instruções que deveria vir com seu filho”, Daniel G.Amen, Ed.Mercuryo. Contribui para jornais e revistas e participa frequentemente de programas de televisão sobre temas ligados à família e à educação. Ministra palestras para profissionais da área de educação e saúde e para grande público.

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Thaís Vilarinho

Mãe de dois meninos lindos Matheus e Thomás, Fonoaudióloga Clínica. Pratico corrida e Muay Thai. Adoro escrever, viajar, escutar música, ver um bom filme, sair e estar com a família e os amigos. Sou curiosa, adoro conhecer e aprender coisas novas.

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